A arara de Churchill

A arara de Churchill

Com um comportamento bastante contemporâneo, uma centenária ainda tem energia para xingar direitistas, fascistas e, principalmente, Hitler. Seu nome é Charlie. É uma arara, acaba de completar 104 anos e pertenceu a Winston Churchill. Embora a soberba plumagem azul e ouro da ave tenha perdido um pouco de seu fulgor com os anos, “Charlie” manteve na velhice, pelo menos aparentemente, todas as suas faculdades. Entre suas expressões favoritas, estão “maldito Hitler” e “malditos nazistas”, que repete com o sotaque característico de Churchill. A informação foi divulgada nesta segunda-feira, 26 de novembro, pelo “Daily Mirror”.

A arara de Churchill
Charlie. Sim, é ela mesma na foto. AFP

Churchill comprou o pássaro em 1937 e logo ensinou-a a xingar. “Churchill não está mais entre nós, mas graças a ‘Charlie’, seu espírito, seu palavreado e sua determinação perduram”, disse James Humes, especialista em vida e obra do histórico primeiro-ministro, citado pelo “Daily Mirror”.

José Eduardo Agualusa, escritor angolano, escreveu em coluna em O Globo que “no triste tempo em que vivemos, com o ressurgimento de movimentos neonazis na Europa e de fascismos vários, um pouco por todo o mundo, é uma consolação saber que a sólida, irreverente e indignada voz de Churchill ainda se faz ouvir, mesmo que seja por interposta pessoa — ou melhor, por interposta arara”. Nativa dos biomas da Floresta Amazônica e principalmente no Cerrado e Pantanal, não há registro pátrio de uma arara treinada para rotular políticos. Nem papagaios, outro frugívero nacional.

Theo Souza

(Publicado em 03 de dezembro de 2018)

A devassa nos pássaros

dodô talvez seja o mais conhecido exemplo de pássaro que desapareceu do planeta devido à ação humana, mas o número de espécies extintas ou em vias de extinção é imenso. De acordo com o relatório State of the World’s Birds, divulgado pela ONG BirdLife International, indica que uma em cada oito espécies está ameaçada. São 1.469 aves em perigo, segundo a Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza, sendo 222 em situação crítica.

Cena do filme Rio 2. No desenho, tudo bem
Extinta. Exceto por poucas que ainda vivem em cativeiro

A estimativa é que nos últimos 500 anos 183 aves desapareceram. Desde a virada do século, três espécies desapareceram na natureza: a ararinha azul, que vivia no norte da Bahia e agora só existe em cativeiro; o corvo do Havaí, que era encontrado nas matas dos vulcões Mauna Loa e Hualālai; e o Po’ouli, que vivia na ilha de Maui, também no Havaí, e foi considerado extinto em 2004, após a morte do último casal em cativeiro. “A gente acha que extinção é só para os dinossauros, mas está acontecendo agora, na nossa cara”,  alertou Pedro Develey , diretor executivo da ONG Save Brasil, braço da BirdLife International, à Globo. Para a ararinha azul ainda há esperança: existem indivíduos criados em cativeiro que poderão ser reintroduzidos na natureza.

A caça para abastecer o mercado ilegal de animais é a ameaça mais conhecida aos pássaros silvestres, mas está longe de ser a principal. Das 1.469 espécies em risco de extinção, 74%, ou 1.091, estão em perigo por causa do avanço da agricultura. A segunda maior ameaça é a exploração madeireira (50%, ou 734), seguida pela introdução de espécies invasivas (39%, ou 578) e, enfim, pela caça e captura (35%, ou 517). As mudanças climáticas são uma ameaça crescente, colocando em risco a existência de 485 espécies, 28% do total de aves ameaçadas.

Existem no mundo 10.966 espécies de pássaros conhecidas e ao menos 40% delas (3.967) têm suas populações sendo reduzidas. Das 1.469 espécies em risco, 222 são classificadas como em perigo crítico, 461 são ameaçadas e 786, vulneráveis. Existem ainda 1.017 espécies quase ameaçadas.

Além da destruição do habitat, o avanço da agricultura está envenenando os pássaros. O relatório destaca o caso do tico-tico de coroa branca (Zonotrichia leucophrys), que vive no Canadá, nos EUA e em alguns países europeus, em regiões agrícolas, onde se beneficia da fartura de grãos e da disponibilidade de água. Mas existem evidências de que esses pequenos pássaros estão sendo envenenados pelos inseticidas usados nas plantações.

O estudo também chama atenção para o efeito catastrófico das espécies invasivas. Nos últimos cinco séculos, animais exóticos a uma determinada região foram responsáveis, ao menos em parte, pelo desaparecimento de 122 espécies de pássaros, sendo o principal fator para extinções recentes. Os animais invasores que mais ameaçam as aves são os ratos e outros roedores (que causam impacto em 250 espécies), os gatos (202) e os cães (79) domésticos.

As mudanças climáticas, que muitos projetam para o futuro, já estão afetando as aves. Um estudo recente com 570 espécies mostrou que 24% delas estavam sendo impactadas negativamente pelo caos climático. Os efeitos em larga escala e longo prazo são desconhecidos, mas já foi detectada a tendência de avanço de pássaros de clima quente para regiões historicamente frias, levando competição, pondo em risco as espécies nativas.

BRASIL É O PAÍS COM MAIS AVES EM RISCO

Com grandes áreas florestais, o Brasil é o terceiro país com maior biodiversidade de pássaros, com 1.811 espécies catalogadas, sendo 252 endêmicas. Por outro lado, o país concentra o maior número aves em risco, com 169 espécies, sendo 22 em perigo crítico ou já extintas na natureza. O governo brasileiro já declarou extintas três delas: o limpa-folha do nordeste (Philydor novaesi), o gritador do nordeste (Cichlocolaptes mazarbarnetti) e a corujinha caburé-de-pernambuco (Glaucidium mooreorum), mas a BirdLife ainda as classifica como em perigo crítico.

Araponga, Caboclinho e Pixoxó correm perigo. Veja a lista vermelha de pássaros ameaçados da IUCN (União Internacional para Conservação da Natureza)

Pixoxó – esse é cantador

“O problema é a Mata Atlântica”, explicou Pedro Develey, diretor executivo da ONG Save Brasil, braço da BirdLife International.  Cerca de 40% das aves ameaçadas no país são endêmicas da Mata Atlântica, o bioma brasileiro mais degradado. Restam apenas 11% das florestas nativas. E se a gente perde a mata, as espécies animais e vegetais vão junto.

A situação é mais urgente na Mata Atlântica do Nordeste, onde os pedaços de floresta restantes estão retalhados em pequenas “ilhas”, o que dificulta a expansão das populações e as torna vulneráveis. É lá que viviam a corujinha caburé, o limpa-folha e o gritador do nordeste. A choquinha de alagoas (Myrmotherula snowi) é outra ave do mesmo bioma extremamente ameaçada de desaparecer. Segundo Develey, existem cerca de 40 exemplares vivendo numa reserva particular em Murici, Alagoas.

O diretor da Save Brasil aponta outras duas espécies em situação crítica: o entufado baiano (Merulaxis stresemanni) e a rolinha do planalto (Columbina cyanopis), sendo a última redescoberta em 2016, após 75 anos sem ser avistada. No início do ano, a ONG, em parceria com a Rainforest Trust, adquiriu uma área de 593 hectares onde o animal foi visto para a criação de uma reserva particular.

A situação e o prognóstico não são positivos, mas os esforços de conservação devem ser celebrados. O documento destaca que desde a virada do século 25 espécies foram removidas da lista de perigo crítico graças a programas de proteção. A receita envolve a proteção de habitats existentes, recuperação de áreas degradadas, controle de espécies invasoras e ações direcionadas para a espécie ameaçada. Em casos extremos, programas de reprodução em cativeiro podem reintroduzir espécimes na natureza.

Theo Souza

(Publicado em 04 de outubro de 2018)

O carrapato-estrela e a febre maculosa

Foto: CDC/ Dr. Christopher Paddock/ James Gathany – Fonte: G1

O carrapato-estrela, (Amblyomma cajennense), também conhecido como carrapato de cavalo ou rodoleiro, é o principal vetor da bactéria Rickettsia rickettsii, agente etiológico da febre maculosa. O carrapato estrela costuma parasitar cavalos, bois e capivaras. No Brasil, também são reconhecidos como vetores da febre maculosa o Amblyomma aureolatum – comum em cães) e o Amblyomma dibutatum – comum em capivaras.

Os carrapatos vivem de 18 a 36 meses e uma vez infectados pela bactéria Rickettsia rickettsii, serão contaminantes durante toda a vida, inclusive de forma vertical, de uma geração para outra de carrapatos. Outra forma de infecção é através da cópula.

Para ocorrer a transmissão da bactéria, o carrapato precisa estar aderido à pele humana por pelo menos 4 horas. A picada do carrapato adulto e em função do seu tamanho são mais facilmente identificáveis, entretanto as formas mais jovens (larva e ninfa) são menores e sua picada é menos dolorosa, podendo passar desapercebida.

O período de incubação da febre maculosa é de 2 a 14 dias dependendo da quantidade de bactérias inoculada.  Os sintomas são inespecíficos a princípio, com febre, dor de cabeça e mal-estar, náuseas, como muitas outras doenças febris.

Ao redor do terceiro dia, 90% dos pacientes desenvolvem o rash cutâneo típico da febre maculosa. O tratamento com antibióticos específicos deve ser instituído assim que se confirmar o diagnóstico. A doença pode evoluir com alta gravidade, e comprometer rins, coração, fígado, pulmões e sistema nervoso, podendo levar à meningite, crises convulsivas e coma.

A taxa de mortalidade da febre maculosa sem tratamento é bastante alta.

Apesar de ser uma doença tipicamente rural, nos últimos anos o número de casos urbanos tem crescido.

Dois novos casos de febre maculosa estão sendo investigados em Divinópolis, nesta semana. Na cidade quatro outros casos foram confirmados. Alguns parques da cidade são considerados pontos de infestação do carrapato-estrela.

Medidas de prevenção e controle da doença vem sendo instaurados como o controle dos carrapatos e da população das capivaras, principal hospedeiro do aracnídeo.

Fontes:
-http://www.saude.sp.gov.br/sucen-superintendencia-de-controle-de-endemias/programas/febre-maculosa/doenca
-https://g1.globo.com/mg/centro-oeste/noticia/2018/09/10/dois-novos-casos-de-febre-maculosa-sao-investigados-em-divinopolis.ghtml
-https://www.mdsaude.com/2015/09/doenca-do-carrapato.html
-http://g1.globo.com/bemestar/blog/doutora-ana-responde/post/carrapato-e-febre-maculosa-sinais-de-alerta.html

Patrícia Rati

(Publicado em 14 de setembro de 2018)

As abelhas meliponas

Fonte Imagem: Pixabay

As abelhas que conhecemos no Brasil não são nativas. As estrangeiras, as apis, de origem africana ou europeia, que costumam ser vistas rondando doces e refrigerantes, são mais produtivas e por isso mais populares para a criação. Entretanto tem ferrão e devem ser manejadas com muito cuidado e roupas apropriadas.

Já as abelhas nativas, as melíponas, tem ferrão atrofiado. Elas não picam. Portanto, não instilam veneno, não causam alergia. Seu sistema de defesa é diferente.

Nossas abelhas produzem um mel mais líquido, mais úmido e com um tempo de durabilidade menor. Elas produzem de um a três quilos de mel por ano e as maiores no máximo 10 quilos por ano.  Entretanto elas podem ser criadas até em apartamento, como animais de estimação. Podemos coletar o mel sem a preocupação de levar uma picada. A mais comum é a da espécie jataí. Ela é bem pequena, não tem ferrão e é bem produtiva. Também é mais resistente às condições climáticas e de desmatamento.

As abelhas são fundamentais na preservação da biodiversidade. Entretanto nossas abelhas nativas correm risco de extinção por terem um mecanismo de defesa muito rudimentar em relação às abelhas africanizadas (com ferrão).

A Jataí, além de dócil, é pequena, dourada de olhos esverdeados e com o terceiro par de pernas marrom escuro. Seu mel é colocado em pequenas bolsas redondas dentro da colmeia, sendo que estas bolsas são a forma de proteção da colmeia.  Quem as cria na varanda do apartamento ou no quintal as considera seus bichinhos de estimação, “coisas vivas que vão e vem”.

O Chef Ivan Ralston, do restaurante Tuju, em São Paulo, cria abelhas na entrada de seu restaurante e utiliza o mel para preparar algumas de suas receitas. Cada colmeia produz um tipo diferenciado de mel e o sabor varia de super ácido como vinagre a um sabor que lembra queijo.

Fontes:
-https://www.gazetaonline.com.br/noticias/economia/2018/01/mel-de-abelhas-sem-ferrao-e-vendido-por-ate-r-200-o-quilo-1014116846.html
-https://www1.folha.uol.com.br/serafina/2018/04/1961737-abelhas-viram-bichos-de-estimacao.shtml

Patrícia Rati

(Publicado em 20 de julho de 2018)

Imagem: YouTube

No maior trabalho de campo já realizado sobre a espécie, pesquisadores fizeram levantamentos em 97 locais, em 16 das 23 províncias da China. Espécimes selvagens foram encontrados em apenas quatro locais, mas análises genéticas indicam que eles não são nativos das regiões onde foram encontrados, mas provavelmente libertados de fazendas.

O animal adulto pode alcançar até dois metros de comprimento, pesando mais de 60 quilos, sendo o maior anfíbio do mundo. A salamandra gigante vive em rios de água doce e, no passado, era encontrada em praticamente todo o país. Historicamente, a ingestão de sua carne era considerada um tabu, mas nas últimas décadas se transformou numa iguaria, alimentando a cobiça de caçadores.

Para salvar a espécie, o governo chinês proibiu sua caça e incentivou a criação de fazendas. Hoje, existem milhões de animais em cativeiro, que são vendidos por cerca de US$ 1,5 mil cada. Como medida de conservação, o Ministério da Agricultura incentiva a liberação de filhotes na natureza, num programa que pode ameaçar ainda mais a sobrevivência da espécie.

Em estudo paralelo, os cientistas descobriram que a salamandra gigante se subdivide em ao menos cinco espécies diferentes. E como os atuais programas de libertação desconsideram a genética, os espécimes reintroduzidos podem estar formando híbridos, ameaçando as espécies nativas.

Apesar das aparentes similaridades, as salamandras gigantes selvagens habitavam três grandes rios na China, além de incontáveis rios menores, que correm de forma independente ao mar. E como o animal não pode se mover sobre a terra, elas se adaptaram e diferenciaram ao longo dos anos a ponto de serem reconhecidas como espécies diferentes.

Se pensou no nosso jacaré, errou

Crocodilo e o jacaré foram ‘despromovidos’ do estatuto de fóssil vivo

Estão longe de ser os fósseis vivos em que o imaginário coletivo os transformou. Os crocodilos, e os seus parentes jacarés evoluíram posteriormente, a partir de um grupo que há mais de 60 milhões de anos, no tempo dos dinossauros, era afinal muito diverso. Chamados de crocodiloformes, existiam as mais variadas maneiras: tinha os super-crocodilos, também havia espécimes encorpados, outros com focinhos curtos e caudas quase inexistentes. Até alguns vegetarianos marcavam presença nesse grupo.

Quem diz isso é o vetusto e centenário Diário de Notícias, de Lisboa, que publicou resumo de um estudo compilado por David Krause e Natha Kley, da Universidade de Stony Brook, de Nova York. Segundo ele, foi a descoberta, há dez anos, em Madagáscar, de um fóssil desta espécie de formato estranho que desencadeou, justamente, a onda de estudos que levaram à despromoção dos crocodilos e jacarés da condição de fósseis vivos.

Diário de Notícias:https://www.dn.pt/ciencia/biosfera/interior/crocodilo-despromovido-do-estatuto-de-fossil-vivo-1731335.html

Theo Souza

(Publicado em 22 de junho de 2018)