Encontro

Meu pai perdi no tempo e ganho em sonho.
Se a noite me atribui poder de fuga,
sinto logo meu pai e nele ponho
o olhar, lendo-lhe a face, ruga a ruga.

Está morto, que importa? Inda madruga
e seu rosto, nem triste nem risonho,
é o rosto, antigo, o mesmo. E não enxuga
suor algum, na calma de meu sonho.

Oh meu pai arquiteto e fazendeiro!
Faz casas de silêncio, e suas roças
de cinza estão maduras, orvalhadas

por um rio que corre o tempo inteiro,
e corre além do tempo, enquanto as nossas
murcham num sopro fontes represadas.

Carlos Drummond de Andrade (poeta, contista e cronista brasileiro)

ANDRADE, Carlos Drummond de. Carlos Drummon de Andrade – Obra Completa. Rio de Janeiro: Companhia José Aguilar Editora, 1967.

Expansões

Ilustração: Renata Myers

Expansões
Paul Géraldy (dramaturgo e poeta francês)

Eu gosto, gosto de você!
Compreende? Eu tenho por você uma doidice…
Falo, falo nem sei o quê,
mas gosto, gosto de você.
Você ouviu bem isso que eu disse?…
Você ri? Eu pareço um louco?
Mas que fazer para explicar isso direito,
para que você sinta?.. O que eu digo é tão ôco!
Eu procuro, procuro um jeito…
Não é exato que o beijo so pode bastar.
Qualquer coisa que me afoga, entre soluços e ais.
É preciso exprimir, traduzir, explicar…
Ninguém sente senão o que soube falar.
Vive-se de palavras, nada mais.
Mas é preciso que eu consiga
essas palavras e que eu diga,
e você saiba… Mas, o quê?
Se eu soubesse falar como um poeta que sente,
– diga! – diria eu mais do que
quando tomo entre as mãos essa cabeça linda
e cem, mil vezes, loucamente,
digo e repito e torno a repetir ainda:
Você! Você! Você! Você!…

Tradução: Eu e você. Guilherme de Almeida, Companhia Editora Nacional, São Paulo, 12ª edição, 1971

Toi e Moi
Expansions (Paul Géraldy) – Versão original

Ah! je vous aime! Je vous aime!
Vous entendez? Je suis fou de vous. Je suis fou…
Je dis des mots, toujours les mêmes…
Mais je vous aime! Je vous aime!…
Je vous aime, comprenez-vous?
Vous riez? J’ai l’air stupide?
Mais comment faire alors pour que tu saches bien,
pour que tu sentes bien? Ce qu’on dit, c’est si vide!
Je cherche, je cherche un moyen…
Ce n’est pas vrai que les baisers peuvent suffire.
Quelque chose m’étouffe, ici, comme un sanglot.
J’ai besoin d’exprimer, d’expliquer, de traduire.
On ne sent tout à fait que ce qu’on a su dire.
On vit plus ou moins à travers des mots.
J’ai besoin de mots, d’analyses.
Il faut, il faut que je te dise…
Il faut que tu saches… Mais quoi!
Si je savais trouver des choses de poète,
en dirais-je plus —réponds-moi—
que lorsque je te tiens ainsi, petite tête,
et que cent fois et mille fois
je te répète éperdument et te répète:
Toi! Toi! Toi! Toi!…

Deu no NYT: a ciência também precisa de reforma
Deu no NYT: a ciência também precisa de reforma
Aristóteles lendo (reprodução)

Dos 20 mil genes presentes no nosso DNA, cerca de 5.400 nunca foram objeto de um único artigo. Uma pequena fração — 2.000 deles — tem ocupado a maior parte da atenção e são foco de 90% dos estudos científicos publicados nos últimos anos. Os motivos são vários, e dizem muito sobre como os cientistas fazem ciência. Um deles é que os pesquisadores tendem a se concentrar em genes que foram estudados por décadas — não só porque é mais fácil, mas porque os prêmios e a academia também estimulam isso. O problema é que, nesse ritmo, levaria um século ou mais para os cientistas publicarem pelo menos um artigo sobre cada um dos nossos 20 mil genes. Para especialistas, os cientistas não vão mudar seus caminhos sem uma grande mudança na forma como a ciência é feita — é preciso estimular e reconhecer quem faz apostas verdadeiramente desconhecidas, em vez de seguras. Os questionamentos e mais informações foram publicados no New York Times.

Álcool mata 3,3 milhões , diz OMS.

No Brasil, doença custa R$ 116,8 bi

Todos os anos, 3,3 milhões de pessoas morrem pelas consequências do consumo excessivo de álcool. O dado, divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), indica que 5% das mortes do planeta em 2016 (último dado disponível pela OMS) tiveram relação com os hábitos em relação às bebidas alcoólicas. O levantamento considerou todas as consequências geradas pelo consumo de álcool: 29% das mortes, por exemplo, ocorreram por lesões em decorrência de acidentes de carro ou suicídios. De acordo com a OMS, os homens estão mais propensos a sofrerem os danos causados pelas bebidas alcoólicas: 2,3 milhões de pessoas do gênero masculino morreram em 2016.

Além dos homens, os jovens também estão suscetíveis a morrer por conta do consumo excessivo de álcool. Do total de mortes entre pessoas de 20 a 29 anos, 13,5% dos casos têm relação com as bebidas alcoólicas — o que representa 7,2% das mortes prematuras em todo o planeta.  Apesar dos números expressivos, a OMS afirma que a população global está se conscientizando dos riscos do hábito de beber em excesso. Segundo a publicação Galileu, o consumo de álcool diminuiu na Europa: o índice, que era de 10,9 litros de álcool puro por habitante (incluindo as pessoas que não bebem) em 2012, caiu para 9,6 litros em 2016. Tendências semelhantes foram observadas nas Américas.

Ranking – Em todo o planeta, os destilados são o tipo de bebida alcoólica mais consumida, correspondendo a 45% do total. A cerveja vem em segundo, com 34% do consumo.  Alguns dos países com as populações que mais consomem álcool são a Dinamarca, Noruega, Argentina, Alemanha, Polônia, França, Coreia do Sul, Suíça, Grécia, Islândia, Eslováquia, Suécia e Nova Zelândia. Já entre os mais “sóbrios” estão o Paquistão, Bangladesh, Egito, Mali, Marrocos, Senegal, Mauritânia, Síria, Indonésia, Nepal, Butão, Myanmar e Tunísia.

No que diz respeito às mortes associadas a bebida, os países islâmicos (que proíbem o consumo) também se destacam entre os que tem menos casos, se concentrando no Oriente Médio. São eles: Kuwait, Irã, Palestina, Líbia, Arábia Saudita, Iêmen, Jordânia, Síria, Maldivas e Singapura. Os que possuem mais casos fatais estão concentrados na região dos Países Bálticos, do Leste Europeu e da Ásia Central: Rússia, Ucrânia, Lituânia, Bielorrússia, Mongólia, Letônia, Cazaquistão, Lesoto, Burundi e República Centro-Africana.

Brasil – O consumo de álcool per capita no Brasil aumentou 43,5% em dez anos e agora supera a média internacional. Em 2006, cada brasileiro a partir de 15 anos bebia o equivalente a 6,2 litros de álcool puro por ano (medida que leva em conta o porcentual de álcool na bebida). Em 2016, a taxa chegou a 8,9. Com isso, o País figura na 49.ª posição do ranking entre os 193 avaliados. Os dados são da OMS que também estima uma perda de 7,3% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil, em decorrência de problemas relacionados ao álcool. Ou seja, cerca de R$ 116,8 bilhões em 2017. Incluem-se, entre outros prejuízos para a economia, os gastos do Sistema Único de Saúde (SUS) com o tratamento de doenças associadas ao uso de álcool e às perdas da capacidade de trabalho em decorrência de acidentes de trânsito provocados por motoristas bêbados, desemprego e afastamento do trabalho custeado pela Previdência Social. O 2º Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad) estima que 11,7 milhões de pessoas sejam dependentes de álcool no Brasil.

O quanto você tem se exercitado?

Quase metade da população adulta do Brasil — ou 47% — não pratica sequer o mínimo de atividade física recomendada, o que significa que essas pessoas correm risco elevado de desenvolver doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, demência e até alguns tipos de câncer. O dado é da Organização Mundial da Saúde (OMS), que estudou 168 nações em 2016 e publicou uma análise dos resultados na revista Lancet Global Health.

O mínimo de exercício necessário, semanalmente, é 150 minutos de atividade moderada, o que inclui o ato de caminhar e de subir escadas, ou 75 minutos de atividade intensa. As pessoas podem, ainda, misturar os dois tipos de atividade.

O alto índice de sedentarismo no Brasil puxa para cima a taxa média da América Latina, que é de 39,1%. O país do futebol é, entre os latino-americanos, o que tem a população mais parada.

A pesquisa revela que, no mundo, 1,4 bilhão de adultos faz menos exercício do que deveria. E o mais preocupante: o trabalho mostra um aumento significativo, desde o início do século, no índice de sedentarismo em países de alta renda. Essas nações desenvolvidas viram suas taxas de inatividade passarem de 32% em 2001 para 37% em 2016. Já as nações pobres tiveram, no mesmo período, um aumento médio de apenas 0,2 ponto percentual.

A OMS observou ainda que, em todos os países, com exceção de alguns da Ásia, a população feminina pratica menos exercícios do que a masculina. Uma hipótese para explicar isso é o fato de a maior parte do trabalho doméstico ficar a cargo das mulheres, em parte significativa das nações, o que faz com que elas tenham menos tempo para dedicar à prática regular de exercícios.

Em muitos casos, como em nações do Oriente Médio, as mulheres têm dificuldades para realizar exercícios ao ar livre, por exemplo. Além disso, a gravidez e o tempo voltado para os cuidados com os filhos também podem fazê-las se afastar da atividade física.

Theo Souza

(Publicado em 29 de outubro de 2018)

Netflix para ler – e pensar

Netflix para ler - e pensar

O Instituto Moreira Salles – IMS Paulista, lançou uma plataforma à la Netflix de ensaios literários e entrevistas. Chama-se Artepensamento. São 315 ensaios de 124 autores diferentes — entre eles, Jorge Coli, Paulo Leminski, Celso Lafer, Eugênio Bucci, Maria Rita Kehl, Marilena Chaui e Francis Wolff. O site já está no ar – artepensamento.com.br. É de graça.

2.527 crônicas da era de ouro

Netflix para ler - e pensar
Rubem Braga um dos maiores, senão o cronista-mor, em ilustração de Weberson Santiago

Rubem Braga um dos maiores, senão o cronista-mor, em ilustração de Weberson Santiago

O Instituto Moreira Salles (IMS) e a Casa de Rui Barbosa se uniram para criar o Portal da Crônica Brasileira, que dá acesso a recortes de jornal e transcrições de textos de grandes cronistas do país, como Paulo Mendes Campos, Rachel de Queiroz, Rubem Braga, Antônio Maria, Clarice Lispector e Otto Lara Resende.

O portal entra no ar com 2.527 itens desses autores presentes nos acervos do IMS e da Casa de Rui Barbosa, as duas instituições responsáveis pelo projeto. O site será, segundo as instituições, continuamente alimentado com novos textos e autores. A Casa de Rui Barbosa detém ainda os recortes de Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade e Vinicius de Moraes, e o IMS, os de Mário Quintana, que devem ser acrescentados em breve ao portal.

Os seis autores inicialmente reunidos fazem parte de uma geração que, nas décadas de 1950 e 1960, foi responsável pelo que ficou conhecido como a era de ouro da crônica. Também é grátis.

Reconhecimento oficial

literatura de cordel tornou-se patrimônio cultural do Brasil

Fonte: portal MEC

A literatura de cordel tornou-se patrimônio cultural do Brasil. A decisão foi tomada pelo Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) – órgão colegiado de decisão máxima do instituto para as questões relativas ao patrimônio material e imaterial do país.

“O reconhecimento pelo Iphan era aguardado com ansiedade, porque a literatura de cordel alcançou um nível muito bom”, declarou a O Globo o presidente da Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC), o cearense Gonçalo Ferreira da Silva, de 80 anos, com 300 cordéis e 30 livros publicados pela editora Ravelle. Fundada em 1988, por Gonçalo, a ABLC tem 40 acadêmicos e 27 “cordotecas” espalhadas pelo Brasil. Foi da entidade a iniciativa de pedir a proteção deste patrimônio nacional ao Iphan, em 2010. Segundo seu presidente, existem no país cerca de 60 cordelistas.

No ano passado, o Nexo pôs no ar um especial sobre os versos e traços do cordel e contou como essa literatura, com mais de um século de história, tem hoje seu fôlego renovado pela internet. Veja lá.

Moraes Moreira – Coincidentemente, Moraes Moreira foi buscar nas memórias de infância as melodias e a poesia dos autofalantes de praça ele nasceu em Ituaçu, Bahia, dos contadores de feira e dos repentistas do interior a inspiração para seu novo álbum, Ser Tão. “Há um tempo fiz esse mergulho no cordel, estudei a métrica, a rima, a contagem de sílabas. É necessário obedecer tudo, há muita complexidade. Era um estilo que já existia em minha música, mas era livre. Agora, entrei de cabeça nas regras, e isso fez evoluir minha poesia. É um retorno à raiz”, declara Moraes no press release.

Novo álbum tem nove músicas

Através de sua literatura de cordel, o artista revisita o Recôncavo , o samba de roda e outras sonoridades que remetem a suas origens. “Esse disco fala até do nascimento do cordel, que tem duas vertentes. Depois de ser tão livre, quis me prender um pouco às regras do gênero”, explica. Pelas nove músicas do álbum, Moraes homenageia Luiz Gonzaga (“O nordestino do século”), celebra o poeta inglês William Ernest Henley (“I am the captain of my soul”) e narra sua transformação “De cantor pra cantador”.

Há ainda uma entrevista que o autor deu ao Alta Fidelidade.

Theo Souza

(Publicado em 29 de outubro de 2018)

Uma questão de educação

O índice de pessoas que não cursaram o ensino médio no Brasil representa mais do que o dobro da média apurado em estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE

O Brasil é um dos países com o maior número de pessoas sem diploma do ensino médio: mais da metade dos adultos (52%) com idade entre 25 e 64 anos não atingiram esse nível de formação, segundo o estudo Um Olhar sobre a Educação, divulgado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) na última semana de setembro. A organização de cooperação internacional composta por 35 países com sede em Paris, destaca que o menor nível de escolaridade tende a ser associado com a maior desigualdade de renda.

No caso do Brasil, o país registra o segundo maior nível de desigualdade de renda entre os 46 países do estudo, ficando atrás apenas da Costa Rica. O índice de pessoas que não cursaram o ensino médio no Brasil representa mais do que o dobro da média da OCDE. Na Costa Rica e no México, o percentual é ainda maior que o do Brasil: 60% e 62%, respectivamente, os mais elevados do estudo. Outros países latinoamericanos, contudo, têm melhor desempenho que o Brasil. Na Argentina, 39% dos adultos na faixa de 25 a 64 anos não concluíram o ensino médio, no Chile, o percentual é de 35% e, na Colômbia, de 46%. O estudo abrange as 36 economias da OCDE, a maioria desenvolvidas, e dez países parceiros da organização, como África do Sul, Argentina, China, Colômbia, Índia, Rússia e Brasil.

“Na maioria dos países da OCDE, a ampla maioria dos jovens adultos, com idade entre 25 e 34, tem pelo menos a qualificação do ensino médio. Em poucas décadas, o ensino médio passou de um veículo de ascensão social ao mínimo exigido para a vida em uma sociedade moderna”, afirma o relatório. Segundo a organização, os que deixam a escola antes de completar o ensino médio enfrentam não apenas dificuldades no mercado de trabalho, com menores salários, mas também têm competências cognitivas – memória, habilidades motoras, atenção, entre outras – bem inferiores aos das pessoas que possuem essa formação.

Disparidades – A organização também ressalta o número relativamente baixo de alunos com mais de 14 anos de idade inscritos em instituições de ensino no Brasil. Apenas 69% daqueles entre 15 e 19 anos e somente 29% dos jovens de 20 a 24 anos estão matriculados, de acordo com a OCDE. A média nos países da organização é, respectivamente, de 85% e 42%.

O Brasil enfrenta ainda “desigualdades regionais significativas” em relação ao ensino superior, diz o relatório. No Distrito Federal, 33% dos jovens adultos chegam à universidade. No Maranhão, o Estado com o menor PIB per capita, esse número é de apenas 8%. Essa disparidade regional entre alunos que conseguem atingir o ensino superior no Brasil “é, de longe, a maior na comparação com toda a OCDE e países parceiros”, incluindo grandes países como os Estados Unidos e a Rússia, que também possuem várias áreas de diferentes tamanhos e populações. “Assegurar que as pessoas tenham oportunidade de atingir níveis adequados de educação é um desafio crítico. O acesso ao ensino superior vem crescendo no Brasil, mas ainda é uma das taxas mais baixas entre a OCDE e países parceiros, e está abaixo de todos os outros países da América Latina com dados disponíveis”, ressalta o estudo, citando a Argentina, Chile, Colômbia, Costa Rica e México.

Baixo investimento – Apesar do Brasil investir uma fatia importante de seu PIB na educação, os gastos por aluno no Brasil, em especial com os do ensino básico, são baixos. No Brasil, 17% dos jovens adultos com idade entre 24 e 34 anos atingem o ensino superior. Em 2007, o índice era de 10%. Apesar da melhora, o desempenho ainda está cerca de 27 pontos percentuais abaixo da média da OCDE. “Para melhorar a transição entre o ensino e o mercado de trabalho, independentemente do cenário econômico, os sistemas de educação têm de se assegurar que as pessoas tenham as competências exigidas na vida profissional”, diz a organização.

Segundo a OCDE, apesar do Brasil investir uma fatia importante de seu PIB na Educação, os gastos por aluno, sobretudo no ensino básico, são baixos. O Brasil destina cerca de 5% do PIB à rubrica (dados de 2015), acima da média de 4,5% do PIB dos países da OCDE, diz o relatório.

O governo brasileiro gasta, porém, cerca de US$ 3,8 mil por estudante no ensino fundamental e médio, menos da metade dos países da OCDE. A despesa com os estudantes de instituições públicas de ensino superior, no entanto, é quatro vezes maior, US$ 14, 3 mil, pouco abaixo da média da OCDE, que é de US$ 15,7 mil. A diferença de gastos por estudante entre o ensino superior e o básico no Brasil é o maior entre todos os países da OCDE e economias parceiras analisadas no estudo da organização.

Theo Souza

(Publicado em 04 de outubro de 2018)

Longe da árvore

Fonte Imagem: Livraria Saraiva

Longe da Árvore, publicado pela Companhia das Letras em 2013, é um livro escrito por Andrew Solomon, onde ele analisa o que acontece com as famílias que têm filhos fora dos padrões habituais. Aquelas famílias que precisam se ajustar aos filhos, quando descobrem que têm autismo, ou são surdos, ou transgêneros ou crianças prodígio. Crianças diferentes que por isso entraram em confronto com o afeto de seus pais.

São transtornos ou deficiências que devem ser considerados doenças e tratados ou devem ser considerados como identidades?

Solomon, ele próprio, era disléxico e recebeu muito apoio e orientação de seus pais, conforme ele mesmo descreve, mas o mesmo não ocorreu, quando se viu às voltas com sua homossexualidade.

Ele define essas crianças divergentes como identidades horizontais – diferentes dos padrões familiares e sociais pré-determinados – com graus variados de influências ambientais e genéticas e que compõem uma dura prova aos sentimentos de amar e respeitar dos pais e familiares próximos.

É um livro sobre aceitação do outro, celebração da diversidade, superação do preconceito e entrega ao amor verdadeiro.

Título original: FAR FROM THE TREE: PARENTS, CHILDREN, AND THE SEARCH OF IDENTITY
Título em português: Longe da árvore
Tradução: Pedro Maia Soares, Donaldson M. Garschagen e Luiz A. de Araújo
Páginas: 1056
Lançamento: 25/09/2013
Editora: Companhia das Letras

Patrícia Rati

(Publicado em 28 de setembro de 2018)

A pílula mágica

Fonte Imagem: IMDb

Documentário exibido pela Netflix, “A pílula mágica” aborda a inadequação de nossa alimentação, tão diferente daquela que nossos antepassados faziam. Porque apesar de toda a história da humanidade mostrar que sobrevivemos graças a uma dieta natural, sem açúcar e sem alimentos processados, nos últimos tempos aderimos a dietas completamente opostas e fáceis de adquirir, industrializadas e açucaradas.

A proposta é promover a dieta cetogênica. Sim, gordura animal, gordura saturada e com zero açúcar, causador e coadjuvante de várias doenças modernas. O filme acompanha a saga de pessoas em diferentes situações de vida que se submetem ao experimento da dieta cetogênica, com resultados bons, na opinião de médicos, fazendeiros e outros especialistas da área de saúde, trazendo o alento de que esta dieta pode erradicar doenças comuns como obesidade, diabetes e hipertensão, por exemplo.   

A PÍLULA MÁGICA
Título original: The Magic Pill
Gênero: Documentário
Ano: 2018
Direção: Rob Tate
Produção: Pete Evans, Robert Tate
Roteiro: Robert Tate
Elenco: Pete Evans, Nora Gedgaudas, Rob Tate

Patrícia Rati

(Publicado em 21 de setembro de 2018)

O racismo e a genética

“O racismo é um antigo flagelo da humanidade”. A frase, pronunciada por Luigi Cavalli Sforza, morto neste ano, não sintetizaria melhor seu legado. Luca, como todos o chamavam, nasceu em Genova em 1922, estudou Medicina em Turim e depois em Pavia, e descobriu que a medicina não era sua verdadeira paixão, e sim o que a mosca da fruta, a famosa Drosophila, permitia que estudasse: a genética.

O geneticista desmontou o conceito de raça humana. Entendeu, desde o princípio, que a multidisciplinaridade seria a chave para alcançar resultados significativos em suas pesquisas. Aprendeu matemática e principalmente estatística, uma das mais acertadas decisões de sua vida, porque seu campo pioneiro seria a genética populacional.

Ele desistiu das moscas e voltou-se para os humanos.

Descobriu, por exemplo, que os bascos têm uma incidência de 25% de Rh negativo – a mais alta do mundo, e também estudou o cromossomo Y presente somente nos homens biológicos, pesquisas que corroboraram a teoria de que todo  o DNA dos primeiros hominídeos deixou de fato o continente africano há 100.000 anos para colonizar o restante do planeta.

Através da genética de populações construiu uma arvore genealógica da humanidade  e hoje os geneticistas podem detectar sinais de acontecimentos remotos em nossa genealogia.

O geneticista Sforza, em seu famoso ensaio Genes, Povos e Línguas (1996) montou um atlas genético” ao reunir demografia, linhas filogenéticas das populações mundiais, linguística e arqueologia, descobrindo que todas contam a mesma história. 

Em suas pesquisas define finalmente que as “raças humanas” não existem geneticamente. Os seres humanos são bastante homogêneos geneticamente, os grupos que nos formam não são nitidamente separados, em vez disso constituem um continuum. Não há distância genética útil, as diferenças genéticas não justificam em nenhum caso o conceito de raça e muito menos o racismo.

A interação entre a cultura e a genética de um povo é o que justifica as diferentes populações humanas.

Mas Sforza não se iludia. Em seu ensaio Quem Somos? Pondera: “As forças sociais e econômicas determinam em grande medida o que a ciência faz e como faz”.

Por outro lado, segundo o filósofo Eduardo Giannetti, autos do livro Trópicos Utópicos, há uma diferença significativa no racismo americano e brasileiro, por exemplo. O “racismo” no Brasil é muito mais social. Sabe-se que os negros estudam menos, sabem menos e são mais pobres, sendo assim mais inclinados ao crime.

Para ele é muito importante que desde a escola se aprenda que não há raças e sim etnias e que todos são humanos igualmente, e igualmente ricos e dignos de respeito.

Fontes:
-https://brasil.elpais.com/brasil/2018/09/03/ciencia/1535974124_908508.html
-https://brasil.elpais.com/brasil/2016/06/26/opinion/1466966859_490736.html

Patrícia Rati

(Publicado em 21 de setembro de 2018)

O medo

Fonte Imagem: Pixabay

Os cientistas reconhecem dois tipos distintos de medo. O primeiro é o medo inato, aquele inscrito em nossos genes. Em um experimento controlado, o animal a principio demonstra um comportamento de avaliação de risco. Ele checa o ambiente cuidadosamente à procura pelo alimento que pode sentir pelo cheiro. Quando entende que não há riscos, se torna cada dia mais relaxado. Mas quando é colocado diante de um predador pela primeira vez, ele identifica o perigo de vida através de informações herdadas em seu DNA. É o medo inato. Primário, não relacionado ao córtex cerebral e não relacionado ao aprendizado.

As áreas do córtex relacionadas ao aprendizado e à memória não organizam a resposta de defesa inata.

Em experimento realizado no Instituto de Ciências Biológicas da USP, descobriu-se que o medo aprendido sim, está relacionado ao córtex cerebral. Quando a partir da exposição ao predador, o animal volta a procurar alimento, ele estará muito mais relutante e temeroso.

Estas descobertas tentam explicar as reações exacerbadas do estresse pós-traumático e pesquisas vem sendo realizadas para o tratamento desta e outras doenças relacionadas ao estresse, como a síndrome do pânico.

O medo, o estresse e a ansiedade sempre ajudaram o homem a identificar e evitar o perigo e com isso evoluir. O corpo se prepara para fugir ou lutar. Ao perceber uma ameaça, o cérebro ativa o circuito do medo. Formado pela amigdala e o hipocampo, o sistema dispara a liberação de neurotransmissores para preparar o corpo para reagir.

Dopamina, cortisol, adrenalina e endorfinas são liberadas.  A pressão sanguínea aumenta, assim como as frequências respiratória e cardíaca, as pupilas dilatam e o rosto fica corado.

Entretanto, se o “monstro” é desmascarado, (como por exemplo se assistimos a um filme de terror) o cérebro percebe o embuste através do hipocampo que entra com o lado racional da reação, e diferencia que não há perigo real e interrompe o processo. Mas aquela liberação inicial de dopamina e endorfinas é suficiente para a sensação de prazer e calma que muitos gostam de sentir ao experimentar o medo controlado.

Fontes:
-https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-biologicas/cientistas-descrevem-circuito-cerebral-ligado-ao-estresse-pos-traumatico/
-https://www.youtube.com/watch?v=kPhH2BE9yZ0
-http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,EMI113919-17579,00-ENTENDA+POR+QUE+GOSTAMOS+DE+SENTIR+MEDO.html
-https://www.nexojornal.com.br/expresso/2017/10/31/A-ciência-que-explica-por-que-tantas-pessoas-gostam-de-sentir-medo

Patrícia Rati

(Publicado em 14 de setembro de 2018)