Manoela – Conto

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Ilustração: Ana Razuk

Quando Manoela caiu em si, o mundo estava de cabeça para baixo. Ergueu-se devagar e contraía o rosto; dor a cada movimento.
Houvera uma guerra. Uma batalha sangrenta. O ódio inusitado, a falta de sentido, duas crianças caídas, no relaxamento da morte, como se dormissem.
Manoela frágil, fraca, triste, uma dolorosa lástima pelas perdas viscerais que teve.
Ergueu-se de novo. Começou reunindo os brinquedos, juntou em um saco de juta e levou até a escola duas quadras à frente.
Os danos manifestos em cada grão de terra e nas gotas vermelhas, e nas feridas das paredes.
Distribuiu, entre as crianças que sobreviveram, os brinquedos e as roupas que as filhas não precisavam mais. Reconheceu a gratidão nos olhos miúdos e trágicos. Ali era seu lugar. Não interessava quantas vezes fosse arrancada da terra. Ia brotar de novo. Viçosa e plena.
Com o tempo trocou a ferida por uma pequenina cicatriz em forma de estrela.
Caprichou na voz e nos argumentos. Defendeu a todos e os ensinou a ser fortaleza.
Catou lá de dentro da ferida o empenho para ajudar e transmudar toda a gente.

Patrícia Rati

(Publicado em 27 de julho de 2018)

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