Uma estrela surgiu na altura…

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    Ninguém sabe de onde eles vinham.
    Vinham de pontos diversos do horizonte, de quadrantes diferentes, do longínquo de todas as distâncias…
    Eles, os Reis Magos, representavam toda a humanidade que vivia para além da Judeia, longe do lugar onde nascera o Redentor.
    Uma estrela radiosa apareceu na altura.
    Tinha a sua luz qualquer coisa de inefável, de carinhoso, que se infiltrava, na alma, como um bálsamo, que enlevava, que atraía, que chamava, qual um ideal supremo e maravilhoso.
    A estrela, pouco a pouco, lentamente, suavemente, deslizava no céu, punha-se a caminho na amplidão, como que a convidar os homens todos para uma vida melhor, para a alegria, para a felicidade.
    E os Magos, aprestando os seus camelos preferidos, os mais vistosos e resistentes, nobres companheiros de jornadas árduas, saíram pelo mundo, para o infinito das distâncias incompreendidas, na ânsia, na tortura de alcançar aquele foco de luz, alto como o céu, brilhante como a verdade, sublime como o destino da própria vida humana.
    E caminharam, caminharam, caminharam…
    Que viagem áspera, difícil, dolorosa! Galgaram e desceram montanhas rudes e hostis, acompanharam os cursos dos rios, transpuseram as caudais, ladearam encostas e colinas, repousaram nos vales frescos e profundos, atravessaram desertos imóveis e reluzentes como chapas de metais, descansaram à sombra das tamareiras. Um dia, chegaram às portas de Belém, uma cidade judaica.
A tarde vinha caindo.
    No azul celeste, um azul desmaiado, quase verde, muito alto, apenas refulgia a estrela errante.
Peregrinos, caminheiros, viajantes surgiam, na estrada, a todo instante, e aproximavam-se de Belém.
    Na porta, cruzavam-se as saudações, os brados, os gritos, as polêmicas, as ofertas, as discussões.
    A cidade estava repleta, para o recenseamento ordenado pelos romanos e já não havia lugares nas hospedarias.
    Quando os Magos atingiram a estrada do núcleo urbano, todas as vozes emudeceram, como por encanto.
    Todos os olhares voltaram-se para eles, para as suas montarias estranhas e faustosas, para seus séquitos pomposos.
    Causavam surpresa, espanto e admiração.
    Todos, uns com timidez e outros mais desembaraçados, queriam saber quem eram eles, de onde vinham, para onde iam.
    As linguagens por eles usadas eram incompreensíveis.
    Mas eles deram a entender que vinham de muito longe, que se encontraram, casualmente, na estrada, que impelidos por uma força irresistível tinham, sem prévia combinação, sem qualquer ajuste, partido dos seus reinos distantes, seguindo aquela estrela magnífica, que brilhava lá em cima e que andava pelo céu.
     Pasmos, os filhos de Belém olharam o firmamento e deslumbraram-se com aquele fulgor nunca visto. Quase todos caíram de joelhos.
    – Que seria?
    – Que está para acontecer?
    Todos murmuravam, presos da mais viva admiração, do mais incontido sobressalto.
    Nesse momento, a estrela parou, no alto.
    E veio baixando, lento e lento, macia, cada vez mais brilhante, como se viesse a pousar sobre a cidade. E os seus raios, como num milagre, convergiram, em cone, sobre um ponto da povoação, afastado do centro.
    Esse lugar ficou iluminado, envolto por uma claridade muito branca, muito suave, muito doce.
    – Lá … Lá… É uma gruta que serve de estrebaria! diziam alguns.
    – Nasceu, na gruta, naquele lugar, um menino, filho de uns pobres peregrinos vindos de Nazaré e que se intitulam descendentes da David! informaram outros.
    – Pois é para lá que nós vamos, responderam os Magos.
    E aflitos, com os corações palpitantes, batendo forte, dirigiram-se os Reis, apressadamente, para a gruta. Acompanhou-os uma grande multidão.
    Quando chegavam à estrebaria, a estrela brilhou mais intensamente e, depois, desapareceu…
    Os Magos penetraram a gruta e lá foram encontrar um casal de nazarenos que velava junto a uma criança que repousava sobre o feno e sorria…
    – Este é o Messias! É o Prometido!  É o Salvador, exclamaram os reis e seus companheiros.
    E postando-se, de joelhos, ante os olhos cheios de receio e de surpresa dos pais do menino recém-nascido, Melchior, Baltazar e Gaspar, os Reis que tinham sido tocados pela revelação maravilhosa, ofereceram à criança, como presente e homenagem, os objetos mais custosos e ricos que traziam.

    Aquela estrela radiosa representava, na verdade, o cristianismo, a verdade que acabava de surgir no mundo para a redenção dos homens todos. Guiados pelos preceitos cristãos, esse facho de luz celestial, os homens de toda a terra, de todos os pontos do planeta, de todos os climas, de todas as raças, hão de chegar a Jesus, isto é, à perfeição e à felicidade.

    Que importam as dores, os sacrifícios, os trabalhos, as lutas da grande jornada da vida?
    Tudo isso passará!
    Com os olhos sempre fixos na luz sublime que os orienta e dirige, o cristianismo, nós todos conseguiremos vencer todas as dificuldades, todas as asperezas do caminho e, no fim, atingiremos a eterna bem-aventurança, que é a posse do Reino de Deus com a presença de Jesus!
    Então, poderemos oferecer ao Salvador os tesouros que levarmos, isto é, a riqueza incomparável das nossas virtudes e da nossa fé.
    Que o cristianismo possa infundir nos corações de todos os homens a fé segura e inabalável, e levar todos para Jesus, como aquela estrela de brilho e de suavidade inefáveis pôs a confiança nas almas dos Reis Magos e os conduziu ao presépio de Belém.

(José Mendonça, escritor, advogado e jornalista brasileiro)

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