Você já é Jomo?

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Se a tendência virar realidade, eles voltarão a ficar um de frente para o outro. E conversarão

De acordo com a nova tendência, devemos valorizar mais nossa própria vida do que ficar admirando o que os outros têm e fazem das suas vidas. Afinal, se você olhar bem, vai perceber que o seu cachorro é tão, ou mais interessante do que o cão da sua amiga, que preparar suas refeições é mais eficiente do que ficar sabendo o que seus amigos estão comendo. Ter seu próprio estilo é mais interessante do que verificar o que as pessoas estão vestindo, e que sair com seus amigos é mais divertido do que apenas acompanhar virtualmente as fotos daquela balada que você nem foi. Ou, pior, para que correr o risco de perder o emprego por ficar horas ‘pendurado’ no Facebook? Sim, os patrões – e os chefes – sabem: as redes sociais são os vilões da produtividade.

Funcionar com, digamos, recato é uma nova e bem-vinda tendência. É ser Jomo (prazer em ficar por fora). Jomo desbancou a expressão Fomo, famosa por significar o oposto: “fear of missing out” (medo de ficar por fora). Aquele sentimento que se tem, ao olhar a timeline, de sempre estar perdendo alguma notícia essencial ou de que a vida dos amigos é muito melhor do que a nossa. Um número cada vez maior de pessoas está descobrindo que é muito mais divertido aproveitar a própria vida do que acompanhar virtualmente a dos outros (e ter a sua acompanhada).

Ser adepto do Jomo (joy of missing out) não significa ser alienado, mas sim, usar a internet de forma mais inteligente: ler notícias, saber do trânsito, fazer transações bancárias – e até checar o Facebook. Mas só quando estiver com tempo livre. Segundo especialistas em comportamento, as tecnologias não são inimigas, pois facilitam nossa vida e ajudam na comunicação. O que não pode é fazer mau uso dessas ferramentas e permitir que elas prejudiquem seu trabalho ou convívio social. Se o que você vai publicar ou compartilhar não acrescenta nada de positivo a sua vida, então é melhor não participar. Se todo mundo usar com sabedoria o que a internet tem de melhor, poderemos voltar a ver a vidas ao vivo, em cores e formas reais, e não apenas virtuais.

Esse novo comportamento que, na verdade, é o antigo – e quem tem mais de 35 sabe disso, remete a inúmeros questionamentos que vão desde a etiqueta – afinal, convenhamos, é falta de educação ficar teclando ou olhando se alguém enviou algo durante a refeição. Aliás, os mais radicais acham que é falta de educação falar ao telefone fora de uma mesa de trabalho ou de um reservado aparador na sala doméstica – passando pela educação até chegar a compulsão.

Dosimetria – O comportamento compulsivo – seja ele relacionado a comida, sexo, esportes, autodisciplina ou até piadas ruins – faz com que a pessoa perca o controle sobre o quanto algo ocupa de energia e tempo na sua vida, de tal forma que essa atividade atrapalha outras esferas sociais, como a do trabalho e das relações pessoais e familiares, chegando até a ser prejudicial à   saúde. Com tecnologia e o meio digital, o quadro não é diferente.

No fim de 2017, a OMS (Organização Mundial de Saúde) decidiu incluir a compulsão por jogos eletrônicos como transtorno mental em sua lista referência de doenças. A obsessão por celulares, seja para acessar redes sociais, jogar algo como passatempo ou checar e-mail, não é configurada como doença, mas não deixa de ser percebida como um problema. Em agosto de 2016, a cantora americana Selena Gomez (cujo site vende até roupas) jogou luz sobre a questão ao cancelar sua turnê por motivos de saúde. A jovem celebridade do pop disse estar sofrendo de depressão e ansiedade e apontou seu uso de redes sociais, em especial o Instagram, como responsáveis. No Brasil, o cantor Tiago Iorc tomou uma decisão semelhante. Em publicação feita no Instagram no dia 7 de janeiro, o músico diz que estava precisando de um descanso e se ausentaria “dessa nossa vida instagrâmica que nos consome”.

Na outra ponta, a Apple começou 2018 levando uma “bronca” de seus acionistas, cobrada pelo grupo de investimento Jana Partners e pelo CalSTRS, o fundo de aposentadoria dos professores da Califórnia, a adotar medidas que deem aos pais uma forma de limitar o tempo gasto por seus filhos nas redes sociais, em jogos e outras atividades digitais por meio dos celulares e tablets fabricados pela empresa. Os acionistas estão preocupados com os efeitos viciantes – que eles chamam de “consequências negativas não intencionais” – das novas tecnologias sobre a geração que está crescendo rodeada por elas. Em uma carta aberta publicada no dia 6 de janeiro, os dois grupos citaram uma série de pesquisas que embasam o pedido, como a que aponta que um grande número de professores no Canadá percebeu aumento de distração e sono, bem como queda de foco e interações sociais, nos intervalos das aulas, entre seus alunos. Outra grande empresa pressionada nesse sentido foi o Facebook. Em meados de dezembro de 2017, fez uma longa publicação intitulada: “Passar o tempo nas redes sociais faz mal?”. Nela, o Facebook cita os prós (como as benesses da constante interatividade entre amigos e familiares) e contras (o consumo passivo de informações e publicações, que faz as pessoas se sentirem mal) já apontados por meio de estudos acadêmicos.

Enfim, saber dosar é a grande saída. Mas se a humanidade fosse boa nisso certamente o mundo não estaria como está. Por fim, esbalde-se com o que escreveu a respeito do celular, este aparelho onde falar tornou-se obsoleto, o homo universalis Umberto Eco em sua coluna La Bustina di Minerva (referência aquelas caixas de fósforos de papel que aberta dão espaço para escrever, por exemplo, um número de telefone) para a revista L’ Expresso.

“No início dos anos 1990, quando poucas pessoas tinham telefones celulares, mas estas poucas já conseguiam transformar uma viagem de trem numa coisa insuportável, escrevi uma Bustina bastante irritada. Dizia, em síntese, que o celular só devia ser permitido para os transplantadores de órgãos, os bombeiros hidráulicos (em ambos os casos, pessoas que, para o bem social, precisam ser encontradas de imediato onde quer que estejam) e os adúlteros”. Continue a leitura de O celular revisitado aqui.

Selena Gomez-https://www.selenagomez.com/
Tiago Iorc-https://www.facebook.com/iorcmusic/
Umberto Eco-https://www.cartacapital.com.br/revista/1000/Como-Bauman-Umberto-Eco-tambem-viu-uma-sociedade-liquida

Theo Souza

(Publicado em 06 de julho de 2018)

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