Elena Ferrante

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Fonte: Imagem: Pixabay

Elena Ferrante não existe.

Pseudônimo de uma escritora napolitana (há quem diga que é um autor do sexo masculino), Ferrante escreve há mais de 20 anos, sendo sua última publicação, uma tetralogia, a série Napolitana, que a tornou conhecida no mundo todo. Não a ela, que jamais se identificou, mas a sua narrativa instigante e muito peculiar. Seu contato com a mídia se dá através de sua editora, por questionários que recebe e responde por email.  Sabemos que seus autores preferidos, Tchekhov, Gustave Flaubert, Liev Tolstói, têm fortes figuras femininas, e ela desenvolveu as mulheres protagonistas de seus enredos a partir da leitura apaixonada desses clássicos.

Seus livros tratam da relação entre as mulheres nas mais diversas possibilidades. A série Napolitana acompanha a relação de duas amigas desde a infância até a maturidade, que transita da autodisciplina de uma, à imaginação atribulada da outra.

Entretanto, seus primeiros livros são imbatíveis.

Um Amor Incômodo, no original: L’amore Molesto, 1992, seu primeiro romance, levou muitos anos para ser escrito, até que a autora se sentisse segura para publicá-lo. Trata da relação complicada e conflituosa entre mãe e filha, e a dolorosa volta ao passado da filha, necessária para reconciliar-se com a figura materna, que havia sido encontrada morta por afogamento.

Os personagens masculinos, em todos os livros, mas, particularmente neste, fazem um forte contraponto à protagonista, por serem demasiadamente machistas, violentos e abusivos.

Os Dias do Abandono (no original: I Giorni Dell’abbandono, 2002, a protagonista enfrenta o luto de uma separação, após 15 anos de relacionamento e se desintegra emocionalmente, a tal ponto que precisa ser controlada pela própria filha, uma criança ainda, até se reencontrar e poder seguir em frente. Sua narrativa aguda e o sofrimento pungente dos personagens transmitem desamparo e a devastação física e psicológica.

A Filha Perdida, no original La Figlia Oscura, 2006, trata da maternidade e suas consequências no universo feminino. A protagonista, em uma viagem de férias na praia, depois que suas próprias filhas vão morar com o pai, conhece uma menininha que perde sua boneca favorita. A partir desses elementos simples, Elena elabora os aspectos da mulher durante a gestação e em relação às figuras femininas da família.

Além da tetralogia, a “série napolitana”, e de um livro infantil, Uma noite na Praia, há também um livro que reúne cartas, bilhetes, entrevistas e ensaios, denominado Frantumaglia, onde podemos ver a autora falando de si mesma e de seu processo criativo em uma voz mais confessional. Entretanto, em nenhum momento ela quer mostrar sua identidade. Para ela sua obra é autossuficiente, se mostra e é amada pelos leitores, sem necessidade da moldura da figura do autor e sem a necessidade da promoção da mídia através da propaganda do próprio autor.

Elena Ferrante é o que sua narrativa conta.

Patrícia Rati

(Publicado em 29 de junho de 2018)

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